Agência FAPESP - Na última reunião da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), realizada em maio em Águas de Lindóia (SP), chamou a atenção a freqüência ao curso de química forense. Quase 200 pessoas acompanharam as aulas ministradas por Valter Stefani, professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A sua ligação profissional com a ciência forense começou por acaso, ao ser solicitado pelo governo estadual gaúcho, há cinco anos, para resolver um problema relacionado com bafômetros. Depois disso, não parou mais de ser requisitado, inclusive para cursos e palestras por todo o país. Stefani procurar ajudar no desenvolvimento da área no Brasil, o que, segundo conta, não é tarefa fácil, especialmente pela falta de recursos financeiros. Por ser uma área em que publicações em revistas de impacto são muito raras – e por isso ele continua em seu dia-a-dia com pesquisas na área da química de síntese –, os órgãos de financiamento acabam não olhando para os projetos como deveriam, afirma. Apesar disso, as ciências forenses surgem como uma área muito atrativa, ainda mais no Brasil, onde pode ajudar a polícia no combate ao crime, seja ele organizado ou não, aponta Stefani. Outros exemplos de situações encontradas por especialistas forenses são análises da autenticidade de obras de arte e de documentos ou exame de combustíveis adulterados. Em entrevista à Agência FAPESP, Stefani falou sobre a ciência forense no país e até sobre seriados de televisão, como Detetives médicos e C.S.I., que têm estimulado estudantes a se interessar pelo assunto.
Agência FAPESP – As ciências forenses estão sendo muito procuradas nos últimos tempos, principalmente por profissionais de nível superior, como os químicos. Do ponto de vista científico, existe muito a ser feito nesse campo?
Valter Stefani - Sim, os laboratórios da polícia, por exemplo, são muito pobres. Há instalações de primeiro mundo, como em Porto Alegre, São Paulo ou Brasília. Mas a maioria está na “idade da pedra”. São locais onde existem peritos que fizeram cursos e são bem preparados, mas que não contam com suporte financeiro adequado. O ideal seria ajudar esse pessoal com um kit simples, mas confiável, que pelo menos tire os falsos positivos. A partir daí, seriam enviados aos grandes centros apenas os casos concretos, o que constituiria uma grande mudança. Agência FAPESP - A formação dos peritos é adequada? Eles estão bem atualizados?
Stefani - É fundamental que tenhamos também peritos químicos. Dei uma vez um curso para policiais especializados em impressões digitais. Eram 120, nenhum químico entre eles, mas todos usavam substâncias químicas. Fui obrigado até mesmo a explicar que o iodo era tóxico. Isso tem mudado bastante. Em Porto Alegre, por exemplo, há concursos específicos para químicos. Temos dois ou três doutores em química fazendo perícia. Agência FAPESP - O doutorado na áreas das ciências forenses também é importante?
Stefani - Não quero dizer que os doutores sejam melhores que os demais. Não se trata disso. Mas, teoricamente, são profissionais que trabalharam com todo um instrumental e têm um conhecimento que permitirá introduzir métodos novos de forma mais confiável. Pior do que liberar um bandido é não conseguir inocentar uma pessoa que não tem culpa. Veja quantos casos o DNA tem ajudado a resolver. São pessoas que passaram, ou que passariam, anos na cadeia sem ter nada a ver com determinada história criminosa. Agência FAPESP – Além dos avanços tecnológicos, ainda há muito da química clássica a ser usada em certos casos?
Stefani - Seria muito bom ter testes confiáveis, sensíveis e mais visuais. Há um exemplo recente no exterior que é muito interessante. Ele foi desenvolvido por um policial de Israel e patenteado por uma empresa francesa, que faz a comercialização. Os métodos já eram conhecidos, mas o policial desenvolveu um kit em que o usuário pinga uma certa substância em uma fitinha para ver se ela muda de cor ou não. Isso para saber, por exemplo, se em um lugar há um determinado tipo de explosivo. Agência FAPESP – Então, de forma geral, os químicos e peritos de outras áreas, com suas formações acadêmicas, têm muito a contribuir com a inteligência policial
Stefani - Esse é um ponto fundamental. Se a polícia tem um kit, como nós desenvolvemos no Rio Grande do Sul, para identificar cocaína com tiocianato de cobalto, que custa R$ 0,20 o frasco, ela vai se sentir mais segura. No momento em que o pó é apreendido e o agente tem algo em mãos para usar na amostra, que vai mudar ou não de cor, dependendo da sua constituição, o caso muda totalmente de figura. O policial não perderá tempo ou então passará a tratar a ocorrência de outro modo. Agência FAPESP – Poderia dar exemplos de que avanços seriam bem-vindos para ajudar na resolução de casos mais complicados?
Stefani - No caso dos registros de impressões digitais, seria bom termos um método mais sensível ou que tornasse possível analisar superfícies estranhas. Por exemplo, em um caso de estrangulamento, que tornasse possível conseguir a impressão digital do assassino na pele da vítima. Ou fazer o mesmo para um corpo que foi amarrado, enrolado em um tecido e atirado na água. Agência FAPESP – Mas tirar impressões da pele já é realidade em algum lugar?
Stefani - A polícia do Canadá tem um método para isso, que poderia ser usado por aqui, mas é caro, ele usa uma chapa revestida com prata. Não se trata de valores absurdos, mas a questão é que no Brasil falta dinheiro até para os reagentes mais baratos. Mas, de modo geral, o mundo está para ser descoberto nesse campo. Podemos pensar em, por exemplo, um superluminol [substância que, por quimioluminescência, consegue identificar vestígios de sangue, velho ou muito diluído] mais sensível do que os que existem hoje ou que tivesse um tempo de vida maior. Agência FAPESP – Então, a química forense oferece muito espaço para o jovem pesquisador?
Stefani - Melhor falar em ciências forenses, uma vez que englobam também biologia, farmácia, bioquímica e engenharia e outras áreas. Mas os jovens pesquisadores já estão antenados nesse campo de trabalho e isso tem a ver muito com a televisão. Agência FAPESP – O sr. se refere a seriados como Detetives médicos ou C.S.I.? Até que ponto o conteúdo dessas produções é preciso?
Stefani - Sim, estou falando de Detetives médicos, Testemunha silenciosa e similares, que trazem algumas coisas realmente autênticas e outras hollywoodianas. Encontrar apenas um fio de cabelo e dizer que pertenceu a uma menina loira de 9 anos, que foi agarrada pela perna esquerda, sacudida três vezes, e assim por diante, é bobagem. Mas isso não quer dizer que não estejamos próximos disso. A partir do momento em que existir um banco de DNA, o cenário será outro. O problema é quando isso ocorrerá, pois no Brasil ainda estamos digitalizando impressões digitais. Depois, teremos que ter o sistema para ler esses bancos. E ainda há uma questão adicional: hoje, não podemos fazer bancos de DNA, pois a lei não permite. Tentamos fazer isso em Porto Alegre com a população prisional e não foi possível, pois, juridicamente, a pessoa estaria dando prova contra ela própria. Nos Estados Unidos, hoje tem banco para tudo. Você chega no aeroporto e eles já tiram foto, impressão digital e DNA. Agência FAPESP - Então a polícia brasileira está muito longe de fazer o que vemos hoje nos filmes e seriados norte-americanos?
Stefani - Nos laboratórios forenses sim, está longe. Mas dá para fazer com auxílio das universidades. Por exemplo, a polícia não conta com microscópios eletrônicos de varredura, mas esses equipamentos estão presentes em universidades. Só que muito raramente eles são usados pela polícia.
05/06/2006
Por Eduardo Geraque
segunda-feira, junho 05, 2006
6) FAPESP/ Entrevista
Ciência que desvenda crimes